Bom, o dele é ancestral de todos os idiomas do mundo. Provavelmente, é um só, ou um conjunto de dialetos muito próximos desenvolvidos lá na África subsaariana, numa janela de tempo que a gente não consegue determinar ainda muito bem. A gente trabalha ainda com uma janela muito larga para essa origem da linguagem.
No caso das línguas europeias, do português, por exemplo, essa história que eu estava citando era justamente a história da hipótese dessa língua-mãe comum para vários idiomas europeus e para vários idiomas de fora da Europa, como, por exemplo, o persa, o farsi antigo, ou o sânscrito, como você mencionou. Isso era um trabalho que vinha sendo desenvolvido por bastante gente, mas que costuma ser simbolizado na história da linguística por essa conferência de um juiz britânico na Índia, no final do século 18, em que ele formaliza essa hipótese de que essas línguas, o latim, o grego, o sânscrito, e ele já levanta a bola, provavelmente, às línguas célticas, às línguas germânicas, também façam parte dessa sacola, de que essas línguas todas seriam inter-relacionadas e que elas derivariam de uma mesma língua que estava perdida.
Esse ancestral comum é essa língua que a gente chama de Proto-Indoeuropeu. A gente chama esse tronco de Indo-Europeu e o ancestral de Proto-Indoeuropeu provavelmente era um idioma ou um conjunto de dialetos de um mesmo idioma, versões de um mesmo idioma, que teria sido falado no que seria hoje o território da Ucrânia e que se espalhou posteriormente por essas duas regiões. É uma história que eu acho linda, cara. É uma história que eu acho linda porque, sei lá, a história do progresso científico, num certo sentido, é sempre a história de descobrir uma técnica que me permita conhecer uma coisa que antes dessa técnica era totalmente inacessível. E a gente vê isso acontecer na linguística no século 18, fundamentalmente, quando as pessoas começam a perceber que é possível, e para isso as línguas românicas, as línguas derivadas do latim, tiveram um papel muito importante, porque elas são muito bem conhecidas, muito bem estudadas, e o latim é uma língua muito conhecida, muito bem estudada.
Se eu pego várias palavras de idiomas românicos diferentes, que têm formas diferentes, e comparo com a raiz latina que originou essas palavras, eu começo a entender certas regularidades. Eu começo a entender que o português faz isso, o espanhol faz aquilo, o italiano faz aquilo com este som, por exemplo, com este tipo de sílaba, com esse tipo de construção. Mas o poder realmente dessa coisa vem quando você começa a usar esse sistema ao contrário. E as pessoas começaram a fazer isso, praticar muito esse método na linguística românica, inclusive, mas começaram a levar isso para famílias maiores e famílias que não tinham um ancestral conhecido.
E aí, de repente, a gente se viu sendo capaz de prever com alguma estabilidade formas linguísticas que desapareceram 5, 7 mil anos atrás, antes de deixar marca na escrita, antes de deixar qualquer registro que a gente pudesse acessar. A gente desenvolveu uma ferramenta superpoderosa de reconstruir o que parecia impossível: a fala de pessoas mortas milhares de anos antes do surgimento da escrita. E isso permitiu reconstruir todo um passado de todo um tronco de línguas da Europa e também supor migrações, parentescos entre povos, ligações entre culturas muito antes da arqueologia científica aparecer, muito antes da genética aparecer. A linguística conseguiu fazer isso só com livros, ouvido, bom senso e muito trabalho. Eu acho isso, eu acho um dos capítulos mais bonitos da história da linguística.